Tô me guardando pra (quando) se o carnaval chegar...

Floripa é uma cidade que ama o carnaval, que já foi carnaval da Saldanha do saudoso Mosquito e já foi carnaval gay do Roma. Que ainda é cidade aberta (e não “à venda”¹) aos milhares de corpos que se apertam uns aos outros (diria Canetti²) descendo a Hercílio no Enterro da Tristeza, na celebração dos tambores das escolas de samba na Nêgo Quirido e na passagem da negritude do Africatarina que “acende a chama” carnavalesca na Praça XV.


Este é o meu carnaval, mas há muitos mais carnavais nas ruas da cidade em que, por um lado o amor pela folia, a energia da massa e a diversidade da arte carnavalesca não fazem dessa festa uma unanimidade - menos ainda nos tempos sombrios que estamos vivendo. Por outro lado, diria Bakhtin³, é na festa que a vida popular ainda se torna totalidade universal: se “quem não gosta de samba bom sujeito não é”, quando é carnaval “ajoelhou, tem que rezar”!


Goste-se ou não, quando acontece o carnaval é a cidade.


Mas a questão hoje é: haverá carnaval em 2021?


Se em 2020 o Brasil descobriu-se um país produtor de mortos guiado pela política negacionista do Governo Federal, no Rio de Janeiro a festa insiste em guiar a vida. Na cidade originária do carnaval brasileiro, as escolas de samba já tecem seus enredos para um carnaval que vai acontecer, só não se sabe quando. A Beija-Flor vai “Empretecer o Pensamento”, o Salgueiro fará as máscaras caírem no carnaval da “Resistência” e a Viradouro, campeã de 2020 no Grupo Especial, vai celebrar o grande carnaval da pós-pandemia de 1919, pois “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”!


Já em Floripa, ninguém sabe, ninguém viu.


Mas, o teatro não foge à luta pela arte e pela cultura desta cidade. Portanto, se houver carnaval no ano que vem, a Casa Vermelha certamente fará seu cortejo sair pelo centro da cidade. Eu? Eu “tô me guardando prá se o carnaval chegar” e, quando chegar “eu vou de corpo inteirono Diabo Conselheiro. Que venha 2021, “demorô”!



Fátima Lima

Cenógrafa, figurinista e atriz, é professora-pesquisadora do Departamento de Artes Cênicas e do Programa de Pós-graduação em Teatro da UDESC.

Pesquisa espaço e imagens da cena tendo como foco a teoria crítica e a política da arte.



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¹ Performance artística com estêncil do Grupo ETC, criminalizada pelo MP-SC em 2014. ² CANETTI, Elias. Massa e poder. Tradução de Sérgio Tellaroli. São Paulo: Cia de Bolso, 2019.

³ BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Annablume, Hucitec, 2002.

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